guerra ucraniaA humanidade tem um grande desafio a vencer; viver bem em todas as sociedades distintas. Na história da civilização grega vamos encontrar o poeta-rapsodo Homero (Século IX ou final VIII a.c.), autor dos poemas épicos; A Ilíada sobre a guerra de Tróia e A Odisseia com as aventuras do retorno de Odisseu da guerra. Gerações de jovens se espelharam na narrativa do ídolo ideal, o bravo guerreiro bom e belo, com seu corpo exuberante moldado pela ginástica e jogos de guerra, tendo como virtude, a coragem diante da morte na guerra. O melhor dos homens, o herói que tem seu destino traçado pelos deuses, é inquestionável. Além de sua coragem e força na guerra, usava do poder da retórica e persuasão no domínio do povo[1]. O modelo heroico se arrastou por longo tempo, mas a vaidade do poder e glória continua a abalar a vida social.

O egoísmo e o orgulho, as duas piores chagas do ser humano, promovem desequilíbrios entre as sociedades. Esses sentimentos foram os responsáveis pelas grandes batalhas sanguinárias com as mais cruéis ações em toda a história. Recentemente, no século passado, duas grandes guerras mundiais produziram destruição e mortes incalculáveis. Os recursos financeiros e humanos gastos foram espantosos; poderiam ter sido usados no combate à miséria e desenvolvimento das sociedades, mas a voz da mediocridade falou mais alto. Resultado: nada de ganho, com povos divididos, países devastados e perdas desnecessárias de milhões de vidas. Além disso, promoveu o desenvolvimento da indústria bélica, culminando no famigerado e perigoso arsenal nuclear. Por fim, as novas gerações reconstruíram a devastação à duras penas, mantendo a história pronta para ensinar os desvios brutais.

Na matéria não há o que se perdure eternamente; tudo se transforma. Ao se deixar qualquer matéria inerte ao tempo, demore o tempo que for, ela será destruída ou desfeita. Calamidades naturais sempre existiram, mas a intensidade aumenta com o desequilíbrio ambiental gerado pela própria humanidade. O homem, com sua inteligência e ambição,  avança na destruição ao seu bel prazer. As consequências são imprevisíveis ao longo do tempo. Nesse processo de destruição e dor ao longo da história, tanto nas guerras como nos desmandos naturais e sociais, só há uma explicação a definir; é fruto da inferioridade moral do Espírito humano.

É evidente que a continuidade crescente desse sistema maléfico, com o poder nas mãos de pessoas altamente egoístas e orgulhosas, coloca em risco a vida na Terra com a extinção das espécies humana, animal e vegetal, ou seja, a vida no planeta. O que fazer? De duas uma, ou seguimos aguardando o desfecho final trágico, ou a humanidade, com a sua incapacidade diante do perigo, mais cedo ou mais tarde, receberá a interferência Divina de alguma maneira mais direta, a fim de preservar o planeta; como seria essa interferência? Não há que se pensar em flagelos destruidores indiscriminados, o que seria pouco provável, frente a diversidade e harmonia dos sistemas de vida na Terra.

Como ser encarnado, o Homem ainda é carente para alcançar a visão profunda da realidade e suas possibilidades, mas devido as mudanças visíveis, é possível vislumbrar alguma luz de esperança de paz em nosso planeta. Paz no sentido pleno é algo distante, já que implica na convivência de Espíritos livres de todas as imperfeições, sendo possível apenas nos estados avançados da evolução espiritual, fora da matéria.

Se a causa do problema está nas características da inferioridade do ser humano, pode-se pensar numa melhoria do processo seletivo para reencarnação de Espíritos na Terra. [2] Deveria haver uma redução de Espíritos inferiores e um incentivo aos Espíritos mais avançados reencarnados na Terra para trabalhar no Bem-comum. Será que isso pode estar acontecendo? Nesse caso, quais seriam os meios adequados para uma nova era? Quanto tempo demandaria para que os efeitos benéficos fossem visíveis?

Vejamos! Uma forma eficaz de se combater o mal na sociedade é a liberdade de expressão e comunicação interpessoal. Numa sociedade extremamente fechada, sem conhecimento e livre expressão, o domínio do mais forte prevalece, pois a desinformação produz a alienação, o medo e o comodismo; o império do desrespeito, o interesse pessoal e a força do poder inibem a inquietude pela justiça.

O avanço das civilizações promoveu o rompimento dos laços da ignorância interesseira e mirabolante, mas de forma lenta, já que a comunicação era ainda pífia e insignificante. Grandes reflexões filosóficas com o uso da razão para despertar o interesse do Bem-comum travaram na dispersão das ideias ao longo do tempo. Sócrates, que marcou a história da filosofia como considerado o homem mais inteligente do mundo, nada escreveu; nem mesmo sabemos como era a sua letra.

O domínio da era da navegação abriu espaço no conhecimento das civilizações além-mar, com a ampliação do comércio mundial e melhorias na vida social. O telégrafo, o telefone, a aviação, as ferrovias, as rodovias foram grandes avanços, mas ainda pobres e insipientes, diante da evolução revolucionária que a humanidade precisaria para promover avanços na vida em comum. O que se poderia proporcionar como meio eficiente de trabalho à disposição dos Espíritos mais evoluídos na Terra?

Era uma noite comum e tudo caminhava rotineiramente no dia 29 de outubro de 1969. Mas às 22h30, nasceu um Rubicão, ou seja, um divisor de águas entre os mundos velho e novo. Pesquisadores da University of California (UCLA) em Los Angeles (EUA), usando de um enorme computador rudimentar conectaram com outro computador (host to host) localizado à 643 km dali, no Stanford Research Institute. O planejado seria enviar três letras (LOG). A primeira - L -, foi acionada, e por telefone, o pesquisador em Stanford disse: - confirmado, recebi - L -! Em seguida foi o - O -, também recebido. Na terceira letra - a G -, o computador falhou. Assim, iniciou-se uma revolução da comunicação mundial (LO and Behold) [3]. Milhares de anos em avanços científicos ficaram praticamente parados em comparação a esses apenas 53 anos nas relações humanas.

Quando um conflito ocorre entre duas pessoas, o poder dos efeitos produzidos é proporcional ao estado evolutivo de ambos conflitantes. Podemos observar apenas um desacordo de opinião sem consequências maiores, mas afetando o emocional de qualquer forma, desde que seja realmente um conflito, já que opiniões divergentes em pessoas de boa moral são meios para despertar a séria reflexão na busca da verdade. Uma agressão maior, verbal ou escrita, precisará de um reparo do erro cometido, muitas vezes, a longo prazo. Já, uma agressão física, representa uma forte necessidade de reajuste moral, com efeitos danosos e dolorosos que podem perdurar muitas reencarnações. Entretanto, a agressão física envolvendo a morte de muitas pessoas é extremamente grave, denotando a inferioridade espiritual que só será reabilitada com longas etapas de reajuste espiritual. Para cada pessoa que sofre com tal atitude, incluindo familiares, amigos e outros e, mesmo, em gerações futuras, há se firmado um compromisso de arrependimento e de perdão, que deve ser cumprido, pois não há inferioridade eterna; “a cada um segundo suas obras”.

A guerra é o extravasamento da inferioridade humana próxima à do animal irracional, denotando orgulho, vaidade e egoísmo. Sem a inteligência, os animais atacam e se defendem como instinto de sobrevivência, não se importando quem seja. Há, porém, que avaliar cada caso em particular, já que muitos participam da guerra obrigados e iludidos pela persuasão daqueles que a promovem; “cada caso é um caso”.

Infelizmente estamos diante de uma dessas terríveis tragédias humanas; a guerra na Ucrânia. Podemos observar que se trata de um complexo conflito afetando a vida de muita gente no mundo. Durante a segunda guerra mundial, as atrocidades e crueldades exacerbaram a inferioridade humana com a indiferença pelo sofrimento na luta pela sobrevivência. Alcançou grandes áreas ao longo de seis anos, mas a grande população, fora do conflito direto, recebia pouca informação e há muito tempo depois, devido ao pobre sistema de comunicação global.

Atualmente, os países estão despreparados para lidar com guerras de alta destruição como o que estamos assistindo. Essa infeliz guerra trará uma inevitável conclusão mundial: o grande poder bélico que ameaça o mundo moderno com a força das armas é pura ilusão; ele não poderá ser utilizado na prática. É aqui que o mundo informatizado tem o seu real papel. A cada dia se perde o controle da comunicação global com o avanço tecnológico. É um caminho somente de ida; não há como regredir. Qualquer pessoa no mundo com um celular pode transmitir uma situação aterrorizante em tempo real, capaz de gerar uma simples indiferença em alguns, mas uma enorme indignação em outros. Uma forte reação contrária causará impacto real com efeito devastador sobre a imagem do agressor que, provavelmente, não suportará a pressão. Evidenciamos a internet poluída com notícias falsas (Fake News) e o uso criminoso abusivo, mas ao mesmo tempo, há espaço cada vez maior para a grande massa moralmente evoluída se manifestar a favor da justiça e da solidariedade, limpando com o tempo, os resíduos poluentes.

Assim, o problema não é mais ter armas e sim como usá-las. O grande poderio bélico (convencional e nuclear) torna-se um problema e não uma solução. Ainda temos poucas informações em alguns países com forte controle sobre sua população. Até quando? O uso de armas nucleares significa uma ameaça à vida no planeta, além dos sérios desafios para mantê-las; então, para que serve o arsenal nuclear?

Não há mais espaço para guerras. Os conflitos continuam, mas as soluções somente poderão ter sucesso com diálogo e diplomacia. Os fortes serão fracos, e os fracos, fortes. O mundo está se tornando um só em procedimentos para vida em sociedade, mantendo seus aspectos culturais morais. Os países tendem a perceber que um depende do outro. No futuro, o bem-estar social num país dependerá do mesmo em outra parte do mundo. Países ricos deverão se unir para ajudar o desenvolvimento dos mais pobres, pois somente a vida em comum terá lugar no planeta. A diplomacia será a grande força motriz da humanidade, já que os avanços tecnológicos caminham a passos largos, e as novidades proporcionarão mais facilidade para contato humano direto, talvez sem barreiras.

Essa visão parece utópica num mundo cheio de problemas sociais, porém não se pode negligenciar o papel da informatização na comunicação global e socialização. As redes sociais põem o mundo nas mãos. Essa visão já havia sido divulgada há 25 anos, com a publicação do nosso artigo “A Terra e o Futuro” no Boletim GeaE, Ano 6, Número 269 de 02/12/1997[4]. Naquela época a internet estava ainda engatinhando; agora parece estar na adolescência. E o que virá com a sua fase adulta? com o avanço da computação quântica na era dos qubits?[5] Entretanto, a comunicação global é a forma, e a evolução espiritual (moral e intelectual), o fundo.

O filósofo Heráclito de Éfeso dizia que tudo flui e que tudo está em mudança devido a guerra dos contrários; bem-mal, frio-calor, belo-feio, guerra-paz [1]. Se ele estava certo há cerca de 2500 anos, a mudança que essa infeliz guerra causará será a paz, uma vez que, com a conscientização de natureza prática de que a guerra é extremamente prejudicial para todos, a paz permanecerá até o fim dos dias.

Deus nunca deixará de zelar pela sua morada. O planeta Terra se extinguirá, mas dentro do processo natural do planejamento Divino. Não esperemos uma intervenção direta na ordem social como acreditavam os antigos gregos na fúria de seus deuses contra as desobediências dos humanos. Cada um tem o seu papel responsável na guerra e na paz. Se o nosso planeta falir, o único culpado é a humanidade. Se progredir para o Bem-comum, a Terra se elevará para um mundo melhor. Qual é o seu objetivo de vida? A sabedoria está na consciência de cada um.

 

Referências

1.            Pinho A. História da filosofia. https://purchase.hotmart.com/purchase

2.            Kardec A. Instruções dos espíritos sobre a regeneração da humanidade. Revista Espírita. 1866, 9(10); Disponível em: https://www.geae.net.br/publicacoes/219-artigos-publicados-na-revista-espirita-revue-spirite/1290-os-tempos-sao-chegados-2

3.            Herzog W. LO and Behold - Reveries of the Connected World. Netflix; 2016.

4.            Franzolin Neto R. A terra e o futuro: GeaE; 1997 Disponível em: https://www.geae.net.br/publicacoes/203-artigos-gerais/364-a-terra-e-o-futuro.

5.            Zaparolli D. A era dos qubits. Pesquisa FAPESP. 2019, 20(284):72-77.