GeaeFace80Senhores e caros colegas da Sociedade Espírita de Paris.

É a primeira vez que trazemos um colega à sua última morada. Este a quem vimos dizer adeus vós conhecestes e soubestes apreciar as suas eminentes qualidades.

Lembrando-as aqui, eu apenas diria o que todos sabeis: coração eminentemente reto, de uma lealdade a toda a prova, sua via foi a de um homem de bem em toda a extensão do vocábulo. Penso que ninguém o contestará. Essas qualidades ainda eram postas em destaque por uma grande bondade e uma extrema benevolência. Com isto, haveria necessidade de ter praticado ações brilhantes e de deixar um nome à posteridade? Isso não lhe daria um lugar melhor no mundo onde se acha agora. Se, pois, sobre o seu túmulo não vamos lançar coroas de louro, todos quantos o conheceram aqui depositam, na sinceridade de seus espíritos, coroas mais preciosas: as da estima e da afeição.

Sabeis, senhores, que o Sr. Sanson era dotado de uma inteli­gência pouco comum e de uma grande justeza de apreciação, ainda mais desenvolvida por uma instrução variada e profunda. De uma simplicidade patriarcal nos seus modos de vida, encontrava em seu próprio íntimo os elementos de uma atividade intelectual que aplicava em pesquisas, em invenções, certamente muito engenhosas, mas que, infelizmente, não lhe trouxeram resultados.

Era um desses homens que jamais se aborrecem, porque sempre estão pensando em algo de sério. Conquanto sua posição o tivesse privado daquilo que faz a doçura da vida, seu bom humor jamais se alterava. Creio não exagerar dizendo que era o tipo do verdadeiro filósofo: não do filósofo cínico, mas daquele que está sempre contente com o que tem, sem se atormentar nunca pelo que não tem.

Esses sentimentos sem dúvida constituíam o fundo do seu caráter, mas, nos últimos anos, foram singularmente fortalecidos por suas crenças espíritas. Estas o ajudaram a suportar longos e cruéis padecimentos com uma paciência e uma resignação muito cristã. Não há um só dentre nós que o tendo visto em seu leito de dor, não se tenha edificado com a sua calma e a sua inalterável serenidade. Desde muito tempo ele previa o seu fim, mas, longe de se apavorar, o esperava como a hora da libertação. Ah! É que a fé espírita dá, nesses momentos supremos, uma força da qual só se dá conta quem a possui. E o Sr. Sanson a possuía em grau supremo.

Que é, então, a fé espírita? talvez perguntem alguns dos que me escutam.

─ A fé espírita consiste na convicção íntima de que temos uma alma; que essa alma, ou Espírito, o que é a mesma coisa, sobrevive ao corpo; que ela é feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal que fez em vida.

Dirão que isso é sabido por todos. Sim, exceto pelos que creem que tudo se acaba quando morremos, e estes são mais numerosos do que se pensa, neste século. Assim, na opinião destes últimos, os despojos mortais que temos sob os nossos olhos, e que em alguns dias estarão reduzidos a pó, serão tudo quanto resta daquele de quem nos despedimos. Assim, o que é que homenageamos? A um cadáver, porque de sua inteligência, de seu pensamento, das qualidades que o tornavam amado, nada restará. Tudo será aniquilado. O mesmo se dará conosco, quando morrermos.

Essa ideia do nada que nos esperaria não tem algo de pungente e glacial?

Quem, em presença deste túmulo aberto, não sente um calafrio percorrer as veias, ao pensar que amanhã, talvez, o mesmo lhe acontecerá e que, depois de umas pás de terra lançadas sobre o seu corpo, tudo estará terminado para sempre; que não mais pensará, não sentirá, não amará?

Mas, ao lado dos que negam, há o número ainda maior dos que duvidam, por não terem uma certeza positiva, e para os quais a dúvida é uma tortura.

Vós todos que acreditais firmemente que o Sr. Sanson tinha uma alma, o que pensais em que ela se tornou? Onde está? O que faz? Ah! exclamareis. Se nós pudéssemos saber, jamais a dúvida teria entrado em nosso coração! Sondai bem o fundo dos vossos pensamentos e convencei-vos de que a mais de um entre vós já aconteceu dizer, no foro íntimo, falando da vida futura: “E se assim não fosse?” E dizíeis isso porque não a compreendíeis, porque dela fazíeis uma ideia que não podia aliar-se à razão.

Ora! O Espiritismo vem explicá-la e, por assim dizer, torná-la tangível, tão palpável e tão evidente que não será mais possível negá-la, tanto quanto não é possível negar a luz.

Então, em que se tornou a alma do nosso amigo? Ela está aqui, ao nosso lado, escutando-nos, penetrando o nosso pensamento e julgando o sentimento que anima cada um nesta triste cerimônia. Essa alma não é o que vulgarmente pensam: uma chama, uma centelha, algo vago e indefinido. Não a vereis, de acordo com ideias supersticiosas, correr à noite pela Terra como um fogo-fátuo. Não. Ela tem uma forma, um corpo como em vida, mas um corpo fluídico, vaporoso, invisível aos nossos sentidos grosseiros e que, entretanto, em certos casos, torna-se visível. Durante a vida tinha um segundo envoltório, pesado, material, destrutível. Quando esse envoltório se gasta e não mais pode funcionar, cai, como a casca de um fruto maduro, e a alma o deixa como se deixasse velha roupa de trabalho. É esse envoltório da alma do Sr. Sanson, essa velha roupa que o fazia sofrer, que se acha no fundo da cova. É tudo o que resta dele. Mas ele conservou o envoltório etéreo, indestrutível, radioso, que não está sujeito às doenças nem às enfermidades. É assim que ele está entre nós.

Mas não penseis que esteja só. Aqui há milhares no mesmo caso, assistindo à nossa despedida e felicitando o recém-chegado por se ter libertado das misérias da Terra, de sorte que, se neste momento o véu que no-los encobre pudesse ser levantado, veríamos uma multidão em redor de nós, acotovelando-se conosco, e entre eles veríamos o Sr. Sanson, não mais impotente e deitado no leito de sofrimento, mas alerta, lépido, locomovendo-se sem esforço, com a rapidez do pensamento, sem esbarrar em qualquer obstáculo.

Essas almas ou Espíritos constituem o mundo invisível, em cujo meio vivemos sem nos darmos conta. É assim que os parentes e os amigos que perdemos estão mais perto de nós depois da morte do que se em vida tivessem ido para um país distante.

É a existência desse mundo invisível que o Espiritismo põe em evidência, pelas relações que com ele é possível estabelecer e porque aí encontramos os nossos conhecidos. Então já não é uma vaga esperança: é uma prova patente. Ora, a prova do mundo invisível é a prova da vida futura. Adquirida essa certeza, as ideias mudam completamente, porque a importância da vida terrena diminui à medida que cresce a da vida porvindoura.

Essa a fé no mundo invisível que possuía o Sr. Sanson. Ele o via e o compreendia tão bem que a morte lhe era apenas um pórtico a transpor, a fim de passar de uma vida dolorosa e de misérias para uma vida bem-aventurada.

A serenidade de seus últimos instantes era, pois, ao mesmo tempo, o resultado de sua confiança absoluta na vida futura, que já entrevia, e uma consciência irreprochável, que lhe dizia nada dever.

Essa fé, ele tinha adquirido no Espiritismo, pois, é necessário dizer, antes da época em que conheceu essa ciência consoladora, ele não era materialista, mas era cético. Suas dúvidas, porém, cessaram ante a evidência dos fatos que testemunhou, e desde então tudo mudou para ele. Colocando-se em pensamento fora da vida material, não mais a via senão como um dia infeliz entre um número infinito de dias felizes. Longe de se lamentar da amargura da vida, abençoava os sofrimentos como provas que deveriam acelerar o seu progresso.

Caro senhor Sanson! Sois testemunha da sinceridade da tristeza de todos nós que vos conhecemos e cuja afeição sobrevive. Em nome de todos os meus colegas presentes e ausentes; em nome de todos os vossos parentes e amigos, eu vos digo adeus, mas não um eterno adeus, pois isso seria uma blasfêmia contra a Providência e uma negação da vida futura. Nós, espíritas, menos que quaisquer outros, não devemos pronunciar essa palavra.

Até à vista, pois, caro senhor Sanson. Que possais gozar no mundo onde vos encontrais agora a felicidade que mereceis e vir estender-nos a mão quando nos chegar a vez de nele entrar.

Permiti-me, senhores, pronunciar uma curta prece junto a esta cova antes que ela se feche.

“Deus Todo-Poderoso, que vossa misericórdia se estenda sobre a alma do Sr. Sanson, que acabais de chamar. Possam ser-lhe contadas as provas que sofreu na Terra, e as nossas preces abrandarem e encurtarem as penas que ela ainda poderá sofrer como Espírito.

“Bons Espíritos que viestes recebê-la, e sobretudo vós, seu anjo da guarda, assisti-a, para ajudá-la a despojar-se da matéria. Dai-lhe a luz e a consciência de si própria, a fim de tirá-la da perturbação que acompanha a passagem da vida corpórea à espiritual. Inspirai-lhe o arrependimento das faltas cometidas, e que lhe seja permitido o desejo de repará-las, a fim de apressar o seu progresso para a vida eterna bem-aventurada.

“Alma do Sr. Sanson, que acabais de entrar no mundo dos Espíritos, aqui estais entre nós. Vós nos vedes e nos escutais, pois entre nós e vós acha-se apenas o corpo perecível, que acabais de deixar e que em breve será pó.

“Esse corpo, instrumento de tantas dores, ainda aí está, ao vosso lado. Vós o vedes como o prisioneiro vê as cadeias de que acaba de se libertar. Deixastes o grosseiro envoltório sujeito às vicissitudes e à morte e apenas guardastes o envoltório etéreo, imperecível e inatingível pelos sofrimentos. Se já não viveis pelo corpo, viveis a vida do Espírito, que é isenta das misérias que afligem a Humanidade.

“Não mais tendes o véu que encobre aos nossos olhos os esplendores da vida futura. De agora em diante podeis contemplar novas maravilhas, enquanto nós ainda estamos mergulhados nas trevas.

“Ides percorrer o espaço e visitar os mundos livremente, enquanto nos arrastamos na Terra, retidos pelo corpo material, semelhante, para nós, a um pesado fardo.

“O horizonte do infinito irá desdobrar-se à vossa frente e, em presença de tanta grandeza, compreendereis a vaidade de nossos desejos terrenos, de nossas ambições mundanas e de nossas alegrias fúteis, que os homens transformam em delícias.

“Entre os homens a morte não passa de curta separação material. Do lugar de exílio onde ainda nos retém a vontade de Deus, bem como os deveres que ainda temos a cumprir, nós vos seguimos em pensamento, até o momento em que nos for permitido nos reunirmos a vós, assim como vos reunistes aos que vos precederam.

“Se não podemos ir até vós, podeis vir até nós. Vinde, pois, entre aqueles que vos amam e que amastes. Sustentai-os nas provas da vida. Velai pelos que vos são caros. Protegei-os, conforme o vosso poder, e abrandai os seus pesares pelo pensamento de que agora estais mais feliz, e pela consoladora certeza de que estaremos um dia reunidos em um mundo melhor.

“Que vos seja possível, para vossa a felicidade futura, ficardes doravante inacessível aos ressentimentos terrenos!

“Perdoai, portanto, aos que cometeram faltas para convosco, como eles vos perdoam as que houverdes cometido para com eles.” Amém.[1]

 

[1] Esta prece foi inserida em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVIII, item 60.


Fonte: Revista Espírita, Ano V, n. 5, 1862

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