espiritismoA grande maioria dos espíritas, sem maiores considerações, costumam responder que o Espiritismo é uma Ciência, uma Filosofia e uma Religião.

Isto é um grande equívoco que depõe contra o Espiritismo em lugar de engrandecê-lo. Religião e Ciência não podem ser reunidas dentro de um mesmo corpo doutrinário.

São coisas com objetivos e metodologias completamente diferentes e incompatíveis. Isto acarreta uma percepção negativa do espiritismo por parte de estudiosos acadêmicos interessados no estudo do fenômeno religioso na sociedade. São estudos acadêmicos neutros, sob o prisma da ciência ou da filosofia ou da história das religiões. Não se trata de crítica ou oposição gratuita. Exemplos:

1) Chico xavier, mística e espiritismo

2) Religião, ciência ou auto-ajuda?

Além disto, dizer que o Espiritismo é uma Religião é faltar com a verdade e ensejar essa percepção inadequada do espiritismo.

Essa questão, apesar de mal compreendida, nada tem de complicado. Apenas demanda uma reflexão isenta mais cuidadosa.

Que fique claro, desde já, que o espiritismo não é contra nenhuma religião. Não há porque criticar às manifestações religiosas legítimas, honestas, desinteressadas e éticas. Não é esse o objetivo do espiritismo. Por isso, essa questão precisa ser tratada com muita serenidade e seriedade. Vale adiantar que esse ponto, melhor que qualquer outro, lança luzes e nos permite entender o verdadeiro sentido da Fé Raciocinada.

A Revista Espírita de dezembro de 1868 (p. 483) traz a transcrição de um longo discurso de Kardec realizado no mês anterior, por ocasião do dia dos mortos. Encabeçando o texto Kardec colocou a seguinte questão, “O Espiritismo é uma religião?”

Kardec começa seu discurso lembrando uma passagem de Jesus citada por Mateus (18:20), na qual Jesus teria dito - “Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, aí estarei com elas.”

Começa então ponderando o sentido de estarem ali reunidos para homenagem aos irmãos desencarnados. Por que seria importante se reunirem se a simpatia, a afeição e a lembrança dos laços de fraternidade que unia os espíritos encarnados e desencarnados poderiam ser manifestadas por cada um isoladamente?

Kardec aponta os dizeres de Jesus referido acima, dizendo que a reunião se justifica pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas com objetivos comuns.

Comunhão de Pensamento é pensamento comum, unidade de intenção, de desejo, de aspiração. O Espiritismo nos ensina que pensamento é força, não uma força abstrata, meramente moral. Pensamento é a essência do ser espiritual. É o pensamento que distingue o espírito da matéria. É a harmonia ou desarmonia dos pensamentos que imprimem a sensação de bem-estar ou de desconforto na atmosfera de uma reunião.

Essa comunhão de pensamentos se estabelece tanto entre espíritos encarnados quanto entre espíritos desencarnados, bem como entre o plano material e o plano espiritual. Quando os pensamentos se harmonizam em torno de objetivos comuns, revela-se poderosa força transformadora dos indivíduos.

Essa comunhão de pensamento pode ocorrer em meio a qualquer expressão religiosa. Pode operar transformações positivas entre os seguidores de qualquer Religião. Todavia, infelizmente, a maioria das Religiões se apegam às formalidades exteriores, sobrevalorizando dogmas, ritos, cerimonias e castas sacerdotais, em detrimento da essência moral de amor ao próximo, solidariedade e caridade. Isto acaba corrompendo a verdadeira comunhão de pensamento tal como afirmada por Jesus. Estar reunido em nome de Jesus e estar reunido em torno dos ideais de amor, de caridade e de fraternidade pregados por Ele. Participar de missas, sermões e demais reuniões apenas pela forma social externa em vez do enlace de sentimentos e pensamentos de fraternidade e solidariedade é afastar-se dos ensinos de Jesus.

O verdadeiro significado de Religião é justamente essa religação amorosa e fraterna entre irmãos que compartilham dos mesmos ideais. Esse conceito foi deformado para incorporar dogmas de fé, criando assim uma ambivalência do termo religião que, na acepção usual amplamente aceita, refere-se a cultos e cerimônias ritualísticas dirigidas por representantes de uma hierarquia sacerdotal. Coisas que o espiritismo não adota.

Por este motivo é que o Espiritismo não se diz uma religião, pois se assim o fizesse estaria se ornamentando com caracteres que não possui. Parafraseando Kardec, o espiritismo estaria se colocando na posição de mais uma expressão de dogmas, misticismo e abusos que tantas vezes revoltou a opinião pública.

Por outro lado, se pensarmos no enlace fraterno dos ideais de amor, solidariedade e caridade para com o próximo pregados por Jesus, aí sim, poderíamos dizer que o espiritismo seria uma religião. Mas somente nesse sentido poderíamos usar o termo Religião para o Espiritismo.

Esse duplo sentido da palavra religião torna inapropriado o título de religião para o espiritismo. É mais correto e natural referir-se ao espiritismo como uma Filosofia Moral. Isto, inclusive confere maior liberdade ao espiritismo para o diálogo e convívio fraterno com todas as manifestações religiosas. O espírita é livre para expressar sua religiosidade submetendo todas as crenças ao livre exame da razão, nada aceitando apenas pela fé cega. Deve também ver nos avanços da Ciência a expressão pura e simples das leis da natureza e, portanto, do Criador. Esta é a verdadeira fé espírita. A fé raciocinada. Se quiser, a religião espírita que pode andar lado a lado com a Ciência e reconciliar-se com todas as religiões sob a bandeira da fraternidade e da solidariedade.

 O livro dos espíritos reforça esse ponto, já em sua contracapa, onde coloca encabeçando a página os dizeres “Filosofia Espiritualista”.

 Em sua obra, “O Que é o Espiritismo”, Kardec define o espiritismo com o seguinte: - “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações”.

Para finalizar, mas muito longe de esgotar o tema, temos que dizer que o espiritismo não é uma ciência no sentido materialista, como os vários ramos das ciências físicas, biológicas e até mesmo das ciências humanas, pois para essas, o pensamento é uma propriedade do cérebro. Contudo, Kardec adotou e seguiu uma metodologia rigorosamente racional para o trabalho da codificação.    O espiritismo é uma ciência que trata do espírito e das relações destes com o mundo material. Esse método é muito bem abordado em uma tese de mestrado de 2014 na Universidade Federal de Juiz de Fora na área de Saúde: Pimentel, M. G. Método de Allan Kardec para investigação dos fenômenos mediúnicos (1854-1869).

 A neurociência tem feito muitos progressos na busca pela compreensão da mente ou consciência humana. Todavia, os cientistas ainda não sabem dizer o que exatamente é a consciência. Para nós espíritas, a consciência é o espírito e o pensamento sua expressão. O espírito não depende do corpo carnal para existir, ao contrário da neurociência materialista que persegue a compreensão da consciência em bases puramente materiais. Apesar do espiritismo conceber a consciência ou o espírito como entidade independente do corpo carnal, também não sabe o que, exatamente, vem a ser o espírito, sua constituição íntima e como interage com a matéria. Aceita-se a existência de um fluido cósmico universal, mas cuja natureza íntima ainda não se conhece.

 Este é um bom indicativo do quanto poderemos avançar no conhecimento do ser humano e da vida se num futuro próximo ciência e espiritismo lograrem superar as barreiras ainda existentes e estabelecerem uma aliança ou cooperativismo efetivo.


 

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Sobre o Autor:  Cesar Boschetti

Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (1978), mestrado em Eletrônica e Telecomunicações pelo INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (1983) e doutorado em Engenharia Eletrônica e Computação pelo ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica (2000). É tecnologista sênior do INPE em São José dos Campos, SP. Tem experiência na área de Física da Matéria Condensada, com ênfase em compostos semicondutores IV-VI, técnicas de crescimento epitaxial de cristais semicondutores, tecnologia de alto-vácuo e fabricação e caracterização de dispositivos opto eletrônicos para o infravermelho. Foi coordenador geral do PCI/INPE - Programa de Capacitação Institucional do INPE de junho de 2009 a setembro de 2015. Foi chefe do Laboratório Associado de Sensores e Materiais - LABAS/COCTE/INPE e Coordenador Substituto da Coordenação de Laboratórios Associados – COCTE/INPE de outubro de 2016, quando se aposentou permanecendo em atividade na função até janeiro de 2019.

http://lattes.cnpq.br/8301758221419492

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