infernoquantico

Cada um conhece, perfeitamente, a dimensão do seu inferno e do seu paraíso. Esse estado d’alma; esse destino incerto; essa coisa que desafia o intelecto, coloca em xeque nossa fé ou a falta dela; essa simbiose bizarra de amor e ódio, justiça e injustiça, alegria e tristeza, tudo enfim, talvez seja apenas uma ingênua e pálida amostra da realidade.

Cada um de nós há de ter sua verdade. Não importa se mesquinha, deformada, parcial, boa ou má. Ela é a herança subjetiva e inalienável da história de vida de cada um. Fragmento desconexo da grande e intangível Verdade.

Por isso tudo é muito perigoso tentarmos definir e julgar fatos e pessoas, mas temos obrigação moral de questionar a tudo e a todos. Talvez seja este questionamento o único aspecto sobre o qual a humanidade, bem ou mal, vem lentamente conseguindo ampliar seus horizontes morais e materiais. O questionamento científico tradicional é apenas uma parte dessa empreitada. O fato disto não satisfazer a todas as dúvidas que atormentam nossas mentes não diminui sua importância, ao contrário, deve ser um estímulo adicional para uma inquirição mais ampla e profunda da natureza. Um desafio para a índole humana de conhecer e se libertar das amarras da ignorância e de um mercado de ilusões, mesquinho e opressor que limita o tempo do indivíduo e estreita seus horizontes. Os paradigmas do atual sistema estão em xeque. As definições tradicionais de público e privado estão sendo dissecadas como jamais foram antes. O conhecimento vem se rebelando cada vez mais contra seu aprisionamento por mentes pequenas. A grande rede e o movimento “open source” (software livre) são apenas uma pequena parte desse anseio mundial. O clamor crescente das multidões esquecidas pela frieza do mercado já não pode mais ser abafado. O gemer de um mundo doente é sinal de grandes e oportunas mudanças.

As incertezas do mundo atual não são apenas fases passageiras. A incerteza é a própria realidade a ser compreendida e administrada sob uma nova óptica. É preciso coragem, determinação e, acima de tudo, sede honesta de liberdade e de conhecimento para superarmos os velhos paradigmas.

Com o nascimento da ciência moderna, fundamentada por Newton (1642 – 1926), o mundo passou a viver na euforia do determinismo. A mecânica Newtoniana ou Clássica assegurava-nos que, uma vez conhecidas certas condições ou propriedades de um objeto, por exemplo, sua velocidade, sua massa e as forças atuantes sobre ele em um determinado instante de tempo, toda a trajetória passada e futura desse objeto estaria perfeitamente determinada. Esse princípio determinista foi rapidamente absorvido por diversos outros setores do conhecimento, trazendo toda uma nova forma de pensar para o mundo. A partir dele obtivemos uma compreensão bastante ampla do universo.

Laplace (1749 – 1827), matemático, físico e astrônomo francês que, de modo pioneiro, chegou a prever a existência dos buracos negros, fez a seguinte colocação:- “Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos”.

Quando tentamos analisar o que ocorre no microcosmo, isto é, o que ocorre com objetos muito pequenos como átomos e partículas subatômicas que, além de microscópicas ainda se movem com velocidades muito altas, próximas a da luz, o determinismo clássico cai por terra. O grande avanço científico e tecnológico proporcionado pela Mecânica Quântica foi ter rompido, completamente, com o paradigma clássico e apresentado um novo modelo para o funcionamento do microcosmo.

O que temos hoje para descrever o comportamento dos átomos e entender a estrutura e as diversas propriedades da matéria, por exemplo, o funcionamento de um computador, de um smartphone ou de uma TV inteligente, é uma equação matemática chamada Função de Onda. Esse nome esquisito, Função de Onda, é para nos chamar a atenção de que a realidade de um átomo não pode ser descrita pelos parâmetros tradicionais a que estávamos acostumados, isto é, por equações que supunham o conhecimento exato do estado do átomo. Um átomo não é apenas um objeto material com a mesma característica de uma bola de golfe miniaturizada. Um átomo apresenta também características de uma onda eletromagnética como a onda de luz que leva a informação da tela do seu monitor até os seus olhos.

Além disto, esse dualismo onda-partícula, acaba por impossibilitar a determinação simultânea da posição e da velocidade de partículas microscópicas, resultando na queda do paradigma determinístico. É justamente disto que trata o princípio de incerteza de Heisemberg (1901 – 1976, Nobel de Física em 1932), pedra fundamental da Mecânica Quântica.

A Função de Onda apenas nos informa a probabilidade de encontrar uma partícula em uma determinada região do espaço. É uma função de caráter probabilístico. Não existe mais uma certeza da realidade. Além disto, o observador que queira efetuar uma medida do estado de uma partícula (posição e velocidade), quer queira ou não, interfere na medida. Antes da medida, a Função de Onda fornece um conjunto amplo de possibilidades de localização da partícula, bem como possíveis velocidades. Quando o observador efetua a medida, ele provoca o colapso da Função de Onda no local da medida e toda a informação de qual era a velocidade da partícula desaparece juntamente com as outras possíveis posições que poderiam ter sido ocupadas. É importante que o leitor entenda que no ato de medir alguma coisa seja no mundo microscópico ou no mundo macroscópico, existe uma interferência do observador. Essa interferência, em termos modernos, pode ser, por exemplo, uma foto instantânea da partícula ou a observação do desvio de um pulso laser dirigido para a partícula. Se em lugar da partícula temos um carro, um avião ou um atleta disputando os 100 m rasos, a foto (luz refletida pelo objeto incidindo na câmara), é totalmente imperceptível pelo objeto em questão. Já no caso do mundo microscópico, os fótons refletidos pelo objeto estão na mesma ordem de grandeza (tamanho e/ou energia), provocando mudanças importantes no estado da partícula. Seria o equivalente a querer medir a velocidade de um carro jogando um outro carro contra o primeiro que se quer medir. É daí que vem o conceito de incerteza e de interferência do observador na medida e, portanto, na realidade do microcosmo. Para complicar um pouco mais as coisas, em velocidades muito altas, próximas a da luz, o Tempo e o Espaço demonstram uma interdependência que antes (baixas velocidades) parecia não existir.

Todas essas descobertas do início do século XX ainda não foram completamente digeridas pelo homem. As implicações filosóficas dessas novas teorias, a maneira como o comportamento microscópico da matéria pode ser extrapolado e aplicado ao mundo macroscópico, ainda se acham em estado embrionário. A própria compreensão da Mecânica Quântica e da Mecânica Relativista sob uma óptica unificada mais profunda e abrangente ainda está por vir. Niels Bohr (1865 – 1962; Nobel de Física em 1922) cunhou a seguinte frase: “Se a Mecânica Quântica não te assustou, então você não a entendeu ainda”. Na mesma linha de Bohr, Richard Feynman (1918 – 1988; Nobel de Física em 1965) dizia - “Se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica, então é porque você não entendeu nada”.

Neste sentido, o Inferno Quântico é apenas uma referência simbólica ao momento atual. As reflexões de Bohr e Feynman, continuam tão atuais como quando foram proferidas. As incertezas humanas e a incerteza quântica são, até o presente momento, de natureza diferente e sem correlação alguma entre elas. Qualquer afirmação contrária é pura especulação sem fundamento científico.

O assunto é instigante, principalmente devido ao formidável sucesso da Física Quântica na moderna tecnologia. Hoje, mais de 70% da economia mundial se apoia em resultados da Física Quântica no mundo microscópico. Não estamos proibidos de especular, desde que, respeitemos o bom senso e os limites da boa ciência. Muita gente boa, com excelente formação científica, costuma abordar e especular em torno desses assuntos espinhosos. Mas não contam com a aceitação ampla da comunidade científica. Esse é um primeiro ponto. São opiniões isoladas. Fazem especulações na forma de livros de divulgação para o público leigo. Isso carrega duas armadilhas. Uma primeira, a de querer colocar em termos simples e compreensíveis na linguagem comum, conceitos cuja interpretação correta só ocorre em cima de equações matemáticas complicadas. Isso conduz a simplificações exageradas e distorções que acabam levando a uma compreensão errada do conceito que se quer explicar. Uma segunda armadilha, não me cabe julgar se ancorada na boa fé ou na ambição pessoal, é a de querer vender livros. Nada errado com o desejo de vender livros, mas é uma armadilha.

Aliás, essa armadilha ocorre com frequência até entre cientistas que fazem parte das correntes científicas majoritárias (o chamado mainstream). Na ânsia de publicar um livro, divulgar seu trabalho e seu nome ou até angariar prestígio e apoio para suas pesquisas, o cientista, por vezes, se deixa conduzir por certos apelos de marketing que acabam por confundir o público leigo. Um exemplo típico é do físico americano Leon Max Lederman (1922 – 2018; Nobel de Física de 1988). Lederman passou 20 anos estudando a possibilidade teórica da existência do bóson de Higgs, mas não encontrou a partícula. Escreveu um livro contando sua busca infrutífera e colocou como tí­tulo: “Goddamn particle”, que significa partí­cula maldita. Seu editor sugeriu mudar o título para “God Particle” que faria mais sucesso. De fato, fez muito mais sucesso, mas levou muita gente a supor que a Ciência tinha finalmente comprovado a existência de Deus, o que, como sabemos, não procede.

A Física Quântica oferece farto cardápio para especulações. Principalmente entre adeptos do movimento newage chamado Misticismo Quântico. As estranhezas da Física Quântica, que levaram Einstein, um dos pais da Física Quântica, a desencarnar sem aceitá-las (daí sua célebre frase que Deus não jogava dados) são exploradas sem maiores rodeios em diversos setores. Temos Meditação Quântica, Preces Quânticas, Saltos Quânticos, Cursos de Física Quântica para bombar o sucesso profissional, Curas Quânticas, Programação Neurolinguística com Física Quântica etc, etc.

Não podemos de forma categórica, enfática e dogmática dizer que não haja qualquer relação sutil entre processos ou fenômenos do campo metafísico com o comportamento quântico no mundo microscópico. Mas se houver alguma relação ela é ainda inacessível à investigação científica usual. Por este motivo é fundamental firmar que tudo não passa de pura especulação sem qualquer base científica real. O estudioso do espiritismo deve tomar cuidado com a apreciação dessas especulações. Devemos lembrar sempre o aconselhamento de Kardec de passar tudo pelo crivo da razão e se a Ciência apontar erros no Espiritismo, devemos ficar com a Ciência.

De qualquer modo, nosso mundo precisa romper com velhos paradigmas e buscar novas alternativas para o progresso moral e material da sociedade humana. Um progresso em harmonia com o meio ambiente e em clima de maior fraternidade, deixando para traz os preconceitos e o egocentrismo. Não precisamos nos preocupar se o inferno é quântico ou não. Tudo que precisamos para superar as incertezas do futuro é de amor, caridade e esperança.

Referências:

Wikipédia. A Enciclopédia eletrônica

Fonseca, A. F. Curso Ciência & Espiritismo. GeaE - Grupo de Estudos Avançados Espíritas, 2004.

Xavier, A., Fonseca, A.F., Bernardo, C.A.I. Diálogo fraterno sobre Ciência e Espiritismo. GeaE-Grupo de Estudos Avançados Espíritas, 2004.


 

cesarBoschetti2Sobre o Autor: - Cesar Boschetti

Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (1978), mestrado em Eletrônica e Telecomunicações pelo INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (1983) e doutorado em Engenharia Eletrônica e Computação pelo ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica (2000). É tecnologista sênior do INPE em São José dos Campos, SP. Tem experiência na área de Física da Matéria Condensada, com ênfase em compostos semicondutores IV-VI, técnicas de crescimento epitaxial de cristais semicondutores, tecnologia de alto-vácuo e fabricação e caracterização de dispositivos opto eletrônicos para o infravermelho. Foi coordenador geral do PCI/INPE - Programa de Capacitação Institucional do INPE de junho de 2009 a setembro de 2015. Foi chefe do Laboratório Associado de Sensores e Materiais - LABAS/COCTE/INPE e Coordenador Substituto da Coordenação de Laboratórios Associados – COCTE/INPE de outubro de 2016, quando se aposentou permanecendo em atividade na função até janeiro de 2019.

http://lattes.cnpq.br/8301758221419492

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