suicidioSuicídio: causas e consequências

Raul Franzolin Neto

 

 “As causas e consequências do suicídio só podem ser entendidas em um contexto geral, envolvendo as vivências passadas, presente e futuras e, portanto, não está ao nosso alcance no momento.

      Certa vez participei do funeral de uma jovem de 33 anos que optou pelo desencarne drástico com o auto enforcamento, vítima de momento fortemente depressivo. A tristeza estava estampada nos rostos de muitos familiares e amigos.

Durante o sepultamento, em oração pedi ajuda ao plano espiritual para o acolhimento da jovem sob as bênçãos de Deus e fiquei refletindo sobre o processo em si e da sua importância na nossa vida, já que ocorrem muitos casos assim.

O ambiente formado nesse momento é de muita tristeza, espanto e comoção social pelo rompimento inesperado de uma vida aqui na Terra.

Muito se tem falado a respeito do suicídio, envolvendo aspectos sociais, religiosos, pessoais, etc.  Informações existem de todas as maneiras, e talvez todas levem ao caminho da prática condenável indicativo do extremo erro irreparável.

Mas certamente esse processo não é tão simplista como muita gente acredita, ou seja, o indivíduo decidiu pela sua própria morte, descumprindo a Lei de Deus sendo condenado eternamente. Primeiramente o espiritismo nos ensina que não há penas eternas e nem mesmo punição pura e simplesmente. Há sim necessidade de reparo de qualquer situação inadequada que passarmos. Árduos sofrimentos são enfrentados pelo espírito diante da evolução espiritual, o qual significa um caminho crescente de aperfeiçoamento rumo a felicidade eterna.

A visão estritamente condenável com informações irracionais (absurdas) e longe da verdade, embora possa até contribuir para evitar a prática do suicídio, também não é útil nem para os parentes e amigos e muito menos para o suicida que enfrentará mais dificuldades para o reequilíbrio de suas forças. Mais do que o medo dessa condenação eterna, ou longa duração dependente de orações constantes imposta por muitos, a característica nata individual do desconhecido, ou do medo da morte, é muitas vezes maior, pois ela faz parte da Lei de Deus que nos é dada como meio de preservação da vida.

As causas e consequências do suicídio só podem ser entendidas em um contexto geral, envolvendo as vivências passadas, presente e futuras e, portanto, não está ao nosso alcance no momento.

Devemos considerar que infelizmente o nosso planeta Terra não é um ambiente de total felicidade para a reencarnação de muitos espíritos, principalmente para aqueles que já se encontram em bom estado de evolução espiritual e se propõe avançar mais rapidamente. Vivemos em constante conflitos de condutas estando sujeitos aos mais variados dissabores como assaltos, roubos, crimes horrorosos, guerras, acidentes, fome, miséria, doenças simples e graves, problemas psicológicos como traumas e depressão, além de problemas ambientais com terremotos, secas, inundações, tornados, etc. A desigualdade social é visível dentro de regiões, países e continentes. Nesse contexto, qual será a visão de um espírito que reconhece a necessidade de reencarnar na Terra e vem em sua mente - para onde? De que forma (como)? O que devo fazer? Quanto tempo?

Há, portanto, que analisar a forte pressão imposta pelo meio a que estamos sujeitos em todas as fases do crescimento do indivíduo. Na infância e juventude, a inocência, drogas, problemas sociais; no adulto a insegurança, desemprego, problemas financeiros e desajuste social; na velhice o desamparo, solidão, doenças e tantos outros fatores em todas as fases da vida. Por isso, a semente da preservação da vida em nosso ser é muito forte dentro da Lei Divina da sobrevivência. É por essa razão, que com tantos problemas, o desencarne pelo suicídio é muito pequeno diante da morte natural.

A questão do suicídio deve ser encarada com grande seriedade, pois dizer que a pessoa é condenada eternamente, não produz efeito naqueles que realmente se encontram nesse caminho. É preciso que a pessoa faça uma real reflexão sobre sua vida em toda a sua vivência na Terra, para aí sim, ser capaz de superar esse tremendo trauma e dar o próximo passo em direção ao outro caminho que é o da preservação natural da vida. Do caminho que a levará ao brilhante estado da compreensão e da renovação. 

É interessante observar que quando tudo está indo bem na vida, muitos nem sequer imaginam a possibilidade de uma reviravolta com sérias complicações. Acreditam que a felicidade já está em sua porta e isso é o suficiente. Acreditam que o mérito reside em manter tudo em boas condições. É o caminho, sem dúvida, mais fácil. Entretanto, também é o mais perigoso, pois não há evolução em nível elevado, sem a prática do esforço constante.  Não é incomum, verificarmos a mudança total da chamada vida feliz para um desastre completo, um pesadelo. E pior, como o ditado popular, “desgraça pouca é bobagem”. Isso é um fato e não uma suposição. O espanto e a surpresa acontecem mesmo nas maiores evidências do planeta em meio artístico. A gente não consegue entender como uma pessoa, aparentemente feliz, bonita com plena saúde, rica e poderosa, acaba em situações extremamente desagradáveis e, muitas vezes, em suicídio premeditado, ou indireto com o uso abusivo de álcool, drogas, conduta pessoal perigosa, etc. Um novo desafio surge às portas, provavelmente solicitado pelo próprio espírito em seu planejamento do processo reencarnatório.

Muitas pessoas que cometem o suicídio trazem a angustia de sentirem-se inúteis sem razão de existir e decidem pôr um fim na vida e pronto. Muitos aceitam que seus problemas acabam com a morte.  Essa angustia só pode ser revertida ao sentir que o fim não existe e que ela irá viver eternamente se evoluindo, lutando contra suas mazelas, independente se irá desencarnar hoje ou daqui há muito tempo.

O efeito provocado pelo suicídio é sem dúvida complicado ao espírito devido a redução do tempo da planejada reencarnação, entretanto, cada caso será devidamente avaliado individualmente como em tudo que fazemos e a nova jornada da vida dependerá de toda atividade vivida em muitas reencarnações e no plano espiritual.

A chave do caminho da felicidade eterna está perfeitamente definida na frase “conhece-te a ti mesmo”.

Em todas as épocas da humanidade vamos encontrar exemplos de vida que mostram verdadeira superação diante de extremo desafio na vida. Daí a oração que aprendemos”...livrai-nos do mal” ou “orai e vigiai”.

Vamos rever um pequeno trecho de um diálogo entre Sócrates e Alcebíades, ressaltando que esses filósofos viveram há cerca de 2500 anos e suas reflexões continuam relevantes até hoje. É a própria evolução espiritual elevada já naqueles tempos.

Sócrates — Acaso poderíamos reconhecer a arte que aperfeiçoa os calçados, se não soubéssemos em que consiste um calçado?

Alcibíades — Impossível.

Sócrates — Ou que arte melhora os anéis, se não soubéssemos o que é um anel?

Alcibíades — Não, isto não é possível.

Sócrates — Que seja fácil ou não, Alcibíades, estamos sempre em presença do fato seguinte: somente conhecendo-nos é que podemos conhecer a maneira de nos preocupar conosco; sem isto, não o podemos.

Assim também ouso a inferir:

- É certo que para melhorarmos um sentimento ou vício precisamos conhecê-lo?

Sim, é claro.

- Um indivíduo conhece e modifica todos os seus sentimentos e vícios exatamente da mesma forma que outro indivíduo?

-Não, isso não é possível, caso contrário, eles seriam um só.

Acaso poderíamos reconhecer todos os sentimentos e vícios que existem no indivíduo e suas infinitas possibilidades de mudanças, ou seja, o próprio indivíduo?

Não, isto não é possível.

É certo então, que não podemos melhorar todo o indivíduo se não conheço?

Sim, isso é certo.

Então podemos concluir que somente ele mesmo é capaz de melhorar os sentimentos que somente ele conhece?

Isto parece lógico.

É certo então, que podemos melhorar com a experiência de outro indivíduo somente os sentimentos que reconheço nele?

Sim.

Então é com a experiência de vida na convivência infinita é que aperfeiçoamos todos os nossos sentimentos de maneira que nunca existirá dois indivíduos iguais, já que existem infinitas combinações existenciais.

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